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Não é porque aconteceu algo que tudo está perdido. Nestes dias recebi um recado de uma jovem amiga que mora fora do país. Ela me dizia que estava mal, pois acabara de ser deixada pelo namorado. Não sabia mais o que fazer, se ficar onde está ou regressar à sua pátria. Queixava-se de que nos últimos tempos todos os seus amigos e amigas se haviam casado e que já não tinha mais tantos laços de amizade. De mais a mais, o que ganha não é tanto assim e há algum tempo vem sentindo muito a falta de sua família, ora distante. Como se percebe, uma seqüência de fatores desfavoráveis que estão entristecendo esta jovem e levando-a a sentir-se “mal”. O interessante é que, exceto o fato do término do namoro, todos os outros fatores já estavam presentes há um bom tempo. Apenas que, até este momento, eles não tinham todo o peso que adquiriram a partir da ruptura do namoro. Eles eram suportáveis e ela vivia bem até aquele momento, apesar de tudo. Por vezes, um episódio negativo apenas tem o mérito de colocar todas as demais circunstâncias na mesma ótica. Na verdade, no caso desta jovem, houve sim um fato doloroso para ela, que é o fato de ser deixada pelo namorado. E isto é suficiente para “jogar uma pessoa para baixo”, para deixá-la mal. Mas isto não pode levá-la a julgar tudo sob esta ótica. Para ser sincera consigo, ela tem de encarar a realidade como é: o namorado a deixou. Mas foi só isso. O resto está como sempre esteve. O que confere um tom mais sombrio à sua realidade atual é a perda do namorado. O que não é justo é ver toda a sua vida como estando mal, a partir de um episódio particular. Não se nega a dor que ela esteja sentindo e quanto sinta falta das pessoas ao seu redor. Mas, a realidade é a mesma, exceto num fato, a perda do namorado. Como, na vida, nós procedemos assim. Podemos estar bem por um longo tempo, vivendo com alegria a normalidade da vida, sem nos queixarmos de nada. Basta que um fato aconteça para que todo o quadro mude. Em outras palavras, quão comum é nós conferirmos um peso demasiado forte para a vida (positivo ou negativo) a partir de um fato apenas. Não temos clareza de percepção para nos darmos conta de que é apenas um aspecto que não vai bem, apenas um fato negativo que aconteceu, o que não significa que tudo vai mal, que tudo está errado e que sempre é conosco que tal acontece. A falta de realismo das pessoas, no sentido de enxergar de fato o que está acontecendo, sem estender este olhar para o todo da vida é que torna mais difícil viver. Não há porque tudo deva sair do jeito que nós programamos, pensamos e queremos. A vida é como é e pronto! E há situações sobre as quais nada podemos fazer a não ser aceitá-las e tentar, a partir daí, crescer, não obstante tudo! O que não podemos fazer é o que fez esta jovem: olhar tudo a partir do fato negativo. Vamos olhar a vida como ela é. Existem coisas bonitas, positivas, boas, grandiosas, mas também existem momentos tristes, perdas, mortes, separações. Estes não podem tonificar o todo do nosso viver. Aqueles sim! Cada fato é um fato e ele tem o peso que tem, não mais do que isso. É errado atribuir a um fato um peso maior do que ele tem na realidade. Ser realista e concreto é a melhor saída em todos os casos. Não saiu como prevíamos? Perdemos? Deu errado? Claro que não nos agrada isso, mas ainda assim é preciso enxergar com realismo a situação: foi só isso ou aquilo que deu errado, que perdemos, não é a vida toda que está perdida, que vai mal. Se soubermos viver nesta perspectiva, com certeza teremos uma vida mais leve e realizada, sem buscarmos culpados ou responsáveis pelo nosso estado de ânimo. Pe. Adalto Luiz Chitolina, scj Jornalista, com formação em Psicologia adaltoiates@uol.com.br
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