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GOSTAR OU AMAR? A nossa condição de cristãos, seguidores do Evangelho, nos coloca diante de um imperativo muito claro: AMAR! A pergunta que surge é: amar é a mesma coisa que gostar? Vejo que todos nós queremos amar profundamente os nossos irmãos e aqueles que vivem ao nosso lado. O esforço é nítido e evidente. Mas vejo também quanto se confundem as coisas. Muitos vivem um verdadeiro tormento pelo fato de não conseguirem gostar de alguém. E isso gera um peso enorme em sua vida, porque no imaginário popular, gostar é o mesmo que amar e amar é o mesmo que gostar. Quase que, um dependendo do outro. Ora, precisamos ter claro: uma coisa é a gente gostar de alguém; bem outra é a gente amar alguém. Gostar nós gostamos de quem gostamos e pronto. Não podemos fazer nada quanto a isso. O gostar é um sentimento espontâneo que brota do mais profundo de nós mesmos em direção a alguém que tem alguma característica própria e que nos toca de algum modo. Ou então, quando há algum laço afetivo mais profundo, como os laços familiares, sanguíneos, etc. Mas eu não posso decidir gostar ou não gostar de alguém. O ato de gostar não passa pelos critérios da escolha racional. Ele simplesmente surge, brota, aparece em cada um de nós. Ele se manifesta num dado momento. Claro que ele pode ser conservado, estimulado, favorecido, como também pode ser destruído, mas esta é outra questão. Quero enfatizar apenas que, gostar não é uma questão de escolha ou uma decisão racional. É antes um processo espontâneo que surge na nossa vida. Assim como também o não gostar é algo espontâneo que surge e não é uma deliberação de nossa vontade. Certo, o que eu faço a partir do meu gostar ou do meu não gostar está, obviamente, sob a minha responsabilidade. O fato de não gostar de alguém, para dar um exemplo, não me dá o direito de proceder de forma agressiva, estúpida ou indiferente para com esta pessoa. Mesmo não gostando dela, prevalece o meu dever de tratá-la com respeito e dignidade em qualquer circunstância. Do outro lado está o amar. Agora a situação é outra. O amor não é um sentimento que brota espontâneo (ainda que as várias concepções de amor existentes queiram induzir a isso). Não! O amor é uma escolha, uma decisão racional. Nós escolhemos amar. Nós nos propomos amar! Nós decidimos amar! É assim que acontece entre os casais e é assim que acontece entre os consagrados. Eles não necessariamente devem se gostar, mas eles têm o compromisso de se amar porque escolheram viver esta condição! Quando há uma escolha, uma decisão, uma opção, não entra necessariamente o sentimento. Este, pode até estar presente, e quando isto acontece é ainda melhor. Mas o amor é uma escolha racional e não um sentimento que brota espontaneamente em nós! A confusão se dá quando as pessoas entendem que GOSTAR e AMAR são sinônimos. Eles não são! Aquele é apenas um sentimento, que brota espontâneo dentro de nós; este é uma escolha, uma decisão que entra em cena a partir da nossa racionalidade, do nosso EU consciente. E aqui estão muitos dos nossos problemas de relacionamento hoje. Entendemos que todos devem gostar uns dos outros. Na verdade, no Evangelho, em nenhum momento é dito que devemos nos gostar. O mandamento é para “que nos amemos uns aos outros como Ele nos mandou” (cf. 1Jo, 23), portanto, o amor evangélico. Amar evangelicamente quer dizer não desejar o mal do outro, não colocar empecilhos em seu caminho, não criar dificuldades, não torcer pelo seu fracasso. Amar evangelicamente é desejar que o outro cresça, caminhe, se encontre, tenha sucesso em seus empreendimentos, mesmo que não tenhamos nenhuma simpatia por ele; mesmo que não desejemos, em momento algum, estar com ele. Quando amamos, escolhemos estar com alguém por causa de um ideal, não por causa do prazer de sua companhia. Ao contrário, quando gostamos, temos prazer e satisfação em estar ao lado da pessoa que é objeto deste nosso gostar, o que, neste caso, não nos custa nenhum esforço! Quanto eu compreendo, sob esta perspectiva podemos entender a opção de vida que fazemos: o Matrimônio ou a Consagração Religiosa, Leiga e Sacerdotal. Uma opção de vida que é feita apenas sobre a plataforma do gostar tende ao fracasso e ao insucesso, pelo risco deste ser passageiro! O gostar pode até ser o ponto de partida para uma escolha de vida, mas precisa necessária e fatalmente passar para a outra plataforma, do amar. Bem, de tudo isso, não me parece difícil concluir que, gostar e amar são duas instâncias distintas. Quando estiverem as duas juntas, certamente se verifica o compromisso e o prazer. Mas só o prazer não pode se sustentar. Talvez, o melhor mesmo é tomarmos consciência de que podemos gostar (não devemos) e devemos amar (não podemos). Pe. Adalto Luiz Chitolina, scj Jornalista, com formação em Psicologia adaltoiates@uol.com.br
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